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Sonhadora


Reúno aqui, palavras, idéias e sentimentos. Se algum deles for seu e você não quiser que aqui estejam, me avise. Se algum deles for de alguém e estiver sem crédito, me conte. Espero que algum texto lhe toque assim como me tocou.


14 agosto 2006

Alberto Goldin - O Segredo é saber quando mudar


O segredo é saber quando mudar

Alberto Goldin
Coluna Vida Íntima, Jornal O Globo, 22/02/2004

http://www.albertogoldin.com.br/


Meu nome é Rose e tenho 19 anos. Aos 17, conheci uma pessoa que mudou minha vida. Foi meu primeiro homem; com ele conheci a paixão, o amor, e também a dor profunda no coração. A verdade é que até hoje não consigo esquecê-lo. Já tentei muito, chorei demais. Ele sempre falou que não queria nada sério comigo e eu jamais pensei que fosse me apaixonar. Reconheço que ele foi uma passagem desastrosa em minha vida. Houve uma época que eu não dormia se não o visse. Ainda sou apaixonada, e tenho muita esperança de que algum dia poderei ser correspondida. Já se vão dois anos e os sentimentos são os mesmos. Quando fico perto dele, começo a tremer, a desejar sua boca, seu corpo, desejá-lo completamente. Às vezes penso que gosto de sofrer, chego até a desejar não ter tido nunca estes sentimentos, pois não tem dor maior que a dor do amor não correspondido. Cheguei a prometer a mim mesma que não ia mais chorar por ele, para não acordar com o rosto e os olhos inchados, como quando o vi sair com outra. Às vezes ele passa algumas horas comigo, e é pior, porque fico sozinha com minhas ilusões. Pedi conselho à minha mãe, que me disse para esquecê-lo. Não consigo me controlar, eu o amo, mas gostaria de esquecê-lo ou conquistá-lo para sempre. Peço que diga algo que me ajude. ? ROSE, Rio de Janeiro, RJ


Foi uma cena patética e inesquecível. O cenário: o Manicômio Judicial de Buenos Aires, pouco antes de me formar em medicina. Visitava o setor de pacientes crônicos, e ele ocupava um dos poucos quartos individuais — segundo corria à boca pequena, tinha esse privilégio por ser sobrinho de um famoso escritor. Quando abri a porta, o vi em pé, pálido, sujo, com barba de dois dias. Sua mão esquerda segurava o prato, enquanto a direita levava à boca um garfo com alimento, ou melhor, esse era seu objetivo, porque, na verdade, não o tinha alcançado. A mão estava na metade do caminho, entre o prato e a boca, como se o tempo tivesse parado ou algum gás paralisante o tivesse atacado. Seu olhar se perdia no vazio e pelo tempo que fiquei ao seu lado seus olhos permaneceram abertos, sem pestanejar. Parecia uma fotografia, um quadro ou um boneco de cera. Aprendi o que era “catatonia”, psicose grave na qual a vítima alterna períodos relativamente normais com outros nos quais vira uma estátua. Atualmente, estes quadros são raros, graças ao avanço da farmacologia, porém na época seu caso despertou meu interesse. Era óbvio que não conseguia se alimentar, e perguntei a seu respeito. Relataram-me que quando tiravam dele o prato de comida ou o pedaço de pão, o rapaz não reagia. Contudo, já o tinham flagrado de madrugada remexendo o lixo do hospital para recuperar seu resto de alimento, e às vezes alcançava seu objetivo. Sua doença, além da rigidez muscular, determinava que se fixasse num determinado pedaço de pão, e nenhum outro servia, inclusive correndo o risco de morrer de fome. Não podia trocar um alimento por outro. Ignoro como acabou a vida deste rapaz, mas com freqüência me surpreendo pensando no seu dramático destino. Estou feliz por interromper esta triste história para me ocupar de uma jovem saudável, como Rose, autora da carta. Nada a ver com a catatonia, porém sua história tem um ponto em comum. Desde os 17 anos ama um homem que não a ama. Para Rose, ele é o dono dos seus pensamentos juvenis. Rose não consegue substituí-lo, está condenada a amá-lo. Somente se desembaraça da sua imobilidade para procurá-lo. Rose deveria saber que o segredo da sobrevivência humana reside na capacidade de mudar, de permutar, de negociar, de trocar uma coisa por outra. Isto se aplica tanto à alimentação quanto ao amor, ainda que a “outra” coisa seja um pouco diferente da primeira. Às vezes, a troca é para pior; em outras, para melhor. Se o homem não tiver pão, poderá comer carne, ou algum vegetal. Poderá se alimentar quiçá com chocolate. Se não tiver refrigerante, serve água, talvez frutas, como a laranja, que também saciam a sede. “Se ele não me quer, talvez eu vá sair com algum amigo, ou fazer um programa com minha prima. Irei sozinha ao cinema. Algum outro solitário, com as mesmas restrições, poderá assistir ao mesmo espetáculo.” Duas solidões, quando se somam, se anulam entre si. Rose está catatônica nos seus afetos. Como é jovem, por ora a situação não é grave. Deve se lembrar, porém, de que não é prudente amar homens insubstituíveis, porque não existem. Amar é tão necessário quanto comer, e em ambas atividades o fundamental é poder negociar. Quando falta um alimento ou um homem, deve-se procurar outro, ainda que menos saboroso. As pessoas que alcançam o sucesso afetivo sabem transformar o sofrimento de uma falta na criatividade de uma procura. Caso não sejam exigentes demais, vão encontrar o que procuram (ou algo parecido). Há quem se surpreenda ao encontrar alimentos, homens e programas melhores do que imaginava. Tente negociar.








1 Comments:

Blogger Flavio Fox Mulder said...

Ele sempre falou que não queria nada sério comigo...(não existe audição nessa hora?)...pois não tem dor maior que a dor do amor não correspondido.(E a dor do amor perdido?)

Aprendi o que era “catatonia”, psicose grave na qual a vítima alterna períodos relativamente normais com outros nos quais vira uma estátua.

...o segredo da sobrevivência humana reside na capacidade de mudar, de permutar, de negociar, de trocar uma coisa por outra.(Uma parte da humanidade precisa saber disso urgente e esquecer o medo de ficar só e não ser capaz de ter outro. Cultivar estima.)

“Se ela(e) não me quer, talvez eu vá sair com algum amigo, ou fazer um programa com minha prima. Irei sozinha ao cinema...(O que substitui o vazio quando estamos só?)

Duas solidões, quando se somam, se anulam entre si.(É preciso elas se encontrarem e os dois desejarem a anulação.)

Amar é tão necessário quanto comer, e em ambas atividades o fundamental é poder negociar. (Pior dor é não ter a quem amar ou de quem lembrar quando se ouve aquela música,...chega de saudade. A realidade é que sem ela não pode ser.)

As pessoas que alcançam o sucesso afetivo sabem transformar o sofrimento de uma falta na criatividade de uma procura. Caso não sejam exigentes demais, vão encontrar o que procuram (ou algo parecido). Há quem se surpreenda ao encontrar alimentos, mulheres(homens) e programas melhores do que imaginava. Tente negociar.(Essa receita é perfeita. Será mesmo que todos somos capazes de fazer esse "bolo"??? Quanto tempo para saber tal resposta da nossa capacidade culinária???)

@@@@@

Vai dar 7 horas. Coisa dessa gente que deixa PC ligado e passa por ele na volta para cama. Eram 5:20 quando cheguei no orkut e parei aqui. Acho que achei seu perfil. Não li muito, ainda. Essa carta tem muito, de tudo, que todos precisam saber. Auto- estima urgente. Pena não dar árvore nem vender no shopping.

Amor & Sorte!

11 junho, 2008 07:07  

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